segunda-feira, 30 de março de 2009



A mudança.

Organismo
Sistema tanto
Um tema e tanto
Poema prato
Processo ingrato

O tempo
Em fim
Existe em mim
Preenche
E só
Sentido e tal.

E...

Um dia inteiro de chuva densa
Pântano de tempo de domingo
Uma segunda feira no meio do tempo
Um ‘mingum’ no animo do plexo
Ajeitei o chão de taco com uma esteira
E tentei alongar as fronteiras
As traseiras
Aos deuses de mim
Os destros
Os sestros (dentro)
Vez ou outra me vinham moços altos
E eu dormi e brinquei
Assassinando dois num sonho só
Sonho de de tarde
Coelhos brancos. Molhados e comendo o mundo.
Que é queu posso dizer da mudança?


(Recife, 13.04.08).

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Jacaré-minininho.

Quando eu tinha dois anos
Meus pais me levavam a parques
Para passear

Ao parque da jaqueira
A praça do derby
E ao hospital Ulisses Pernambucano
Popular Tamarineira...

Eles me levavam a tantos lugares
A Mesbla e também a casas de vários amigos deles
Eu chamava de tios (-tios!)
Os amigos que eles mais gostavam
E até hoje chamo alguns
Que acho mais bonito assim.

Era bom quando eu era criança
Morando em recife
Na rua do Jeriquiti...
E achando engraçado
Ir a Pau-amarelo
Ir a praia do Janga
Ir a Maria Farinha.

Meu pai passeava comigo
Pelo centro da cidade
Eu conhecendo cantos
Por muitos lugares

Lojas de departamento, bancos, bares, mares.

Tinham lojas brasileiras
Tinhas lojas pernambucanas
E a arapuä...

Meu pai me levava
Ao banco de Pernambuco bandepe
E eu tomava chá

Meu pai me levava no bar
E eu lanchava ovo de codorna
E amendoim

Eu não achava ruim (nada ruim)
Achava tudo bom (tudo bom)

Por isso é que canto assim
Por isso é que faço esse som.

Na praça do Derby
Morava uma peixe-boi
Em um tanque sem espaço
Bem espremidinha assim
Ela ficou com escoliose
Eu também tenho escoliose
O nome dela era Francisca
O meu pai foi frade franciscano

Mas graças a são Francisco (Graças!)
Que um tal projeto peixe boi
Tirou ela de lá
E ela inda teve três filhinho
Bem gordinhos e grandoesinhos
Que mamaram muito
Mas eu só ouvi falar.

Um dia no horto de dois irmãos
Eu passava por vários bichos
E me deparei com uma cena
Muito da bonita
Eram dois jacarés
Um grande e outro pequeno
E eu disse olha mainha
Venha ver o jacaré minininho
Olha mainha o jacaré minininho

Olha mainha o jacaré-minininho
Olha mainha o jacaré-minininho
Olha mainha o jacaré-minininho
Olha mainha o jacaré-minininho

jacaré minininho.

sábado, 30 de junho de 2007

revista lundum



a. mahin
2006
www.revistalundu.blogspot.com

terça-feira, 19 de junho de 2007

participe & contribua



 CAMPANHA _ANDE_NUA
Nasci nua. Papai psicólogo reichiano, mamãe yoko ono. A nudez era comum dentro de casa. Os órgãos sexuais peludos e protuberantes balançando pelos aposentos. À casa dos pais a nudez nunca foi problema. Até chegar a pré-adolescência. Os seios começaram a aparecer e fui ficando corcunda de Notre Dame. Quem nunca teve aquele sonho besta de sair de casa e depois perceber que está nu e ficar morrendo de vergonha a fim de se esconder, de se enterrar? Eu já tive! Mas com o tempo comecei mesmo foi a tirar a roupa nas festas, no calor, no protesto, nas performances, quando tava a fim, à vontade, ou quando queria morrer. Tirar a roupa passou a ser um suicídio usual, feito escrever, cantar, pintar; um tipo específico de nudez, e que sempre movimentava comentários, sempre repercutia, reverberava. 
Comecei a trabalhar na faculdade com emergência étnica, arte indígena, território; entendi que era esse corpo que mexia quando mexia na nudez. Se tinha medo do índio, do o eu-índio. O índio não era algo resolvido dentro da gente, e não era algo fácil de desnudar, de aceitar. Na legislação é a nudez um atentado ao pudor, um crime. A sociedade se ofende consigo, não se aceita, precisa do fetiche. A obrigatoriedade da roupa fere o direito, a liberdade de expressão, e a beleza. A nudez não é mal nem pecado, mas socialmente passa a ser, é um forte complexo sócio-individual que tem que ser trabalhado, com arte, amor e compaixão. 

A campanha nasceu casualmente como uma filha mulher, quando em 2007 pintei uma camiseta azul celeste para mim mesma. O desenho era de uma pessoa fêmea, feliz, acenando e caminhando nua, ao lado a mensagem escrita; ANDE NUA. Eu era acostumada a pintar minhas próprias camisas com os temas mais variados, mas esse chegou polêmico cômico, quando fui sair de casa minha tia me repreendeu; “você vai ser estuprada”- ela disse. Que coisa louca... Era apenas uma camisa, uma camisa bem composta até, de manguinhas e botões. Fiquei achando a maior loucura ela me repreender por causa da mensagem e achei que a loucura era coisa só dela, mas ao sair na rua vieram olhares e outros comentários. Gentes loucas. Claro que eu não era inocente quanto ao fato de quão tabu era a nudez na nossa sociedade, mas não imaginava que chegasse a tal ponto a abstração. Eu estava vestida, bem vestida, mas a mensagem incitava algo, e esse algo era a própria contradição que acabei achando ótimo que incitasse. Foi excitante, vieram mil outras reflexões, quais antes não faziam parte das pretensões; não pretendia polêmica - era uma brincância, uma camisa, uma tentativa estética - mas essa brincância acordava complexos mais amplos que a campanha agora tinha que arcar. 

Comecei a fazer mais e mais camisas do tipo, figuras variadas e a nudez do meu traço, e fui vendendo e dando, umas eu fotografei, outras se foram sem registro, mas a proposta continua acesa e a agregar novos valores.