domingo, 12 de outubro de 2014

mama mama

Geme e goza quando me mama.

Esborra a boca,
revira os olhos,
sorri pros anjos.

Cai no remanso na maré do breu,
reclama os ventos e se inflama...

Peida e arrota quando relaxa
Se encaixa no sonho e volta à dormir...

Grita e chora quando me chama
- mama de novo e volta a sorrir.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

parto

PARTO
(Anaíra Mahin)

já uma pessoa
acolho, nos acolho
sou já tua mãe
sem saber o que é sê-la

e não sou

segue em nós a real proposta de tentar
uma a outra, experimento, amor
segue conosco essa possibilidade de conhecer
de saber

é já e sempre, forma e fio
trazendo o tanto que temos
e a soma nos faz

os nossos olhos são dentro, o nosso encontro
prisma

e quando o parto nos dividir
é que sentiremos mais
o que nos une

iara

sereiazinha
no supremo líquido
pesando à sair das águas
à morar nas terras
à seguir estradas

sereiazinha
de lugar verdinho
no meu encontrar
de canto e luar

fica um pouquinho
vai sair já já
e mamãe bobinha
nem aproveitou

peixinha peixinho
veio e se molhou
seio se inundou
olho marejou

barco boia bola
mala de maré
me plantou menina
pra nascer mulher


esmeralda

sino anuncia tua chegada
dourada
terra melhor, tua morada
esmeralda

verde que vem, verdade esperada
flor de lindeza na luz da estrada
viva, florida, visita almejada







sábado, 16 de agosto de 2014

<>

"olá, sinhá. Escreve uma poesia linda pra mim!
Mas tem que ser uma poesia de amor,
sem essas coisas de medo, pânico ou hesitação.
Pq eu renasci e sou um poeta menino,
novinho feito o carneirinho de São João."

Poeta menino,
já que eh menino,
e todo menino sabe,
que em matéria de amor,
e todo menino sabe,
que amor só o próprio.

Poeta menino,
e já que eh menino,
sabe que só,
e se sabe
de não saber,
que se sente,
e sente soh,
e dispensa o que excede o simples prazer.

E tudo para,
e tudo move,
quando brinca e eh leve.

E quando guarda sempre explode..
Feito balão, feito pipoca, feito minhoca.

2013

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

aqui

jaz as velhas formas
reforma
ri da velha casca
descasca
chora nova flora
renasce

forma de pedreiro
zum de mariposa
flor de cólon



trovas ligeiras

minha poesia vinga
topa na tua e se faz 
de morenice coringa
de tempo que se refaz

a minha prosa morena
é prosa que vem da terra

bate firme, estronda o chão

é verso também de água
que sente, escorre e derrapa
lama de meditação

minha prosa é suspensa
no universo lançada
de mistério imbuída
de lua eclipsada

A ti, reverso dragão,
aguarda nudez que veste
não tenho língua nem força
a mudança me reveste

me guarde com todo zêlo
que lambido tenho o sêlo,
e de ser já não sou mais...

jarra dágua misturada
salga de lua mudada
ribeira, beirando cais

cigarra nua, sem capa
Porta, flor de aldebarã
torre dupla que te escapa
de transcendente Tehran

tu, meu pássaro cupido,
corrente de rio comprido,
me afaga, gemido, sopro

de cada ovo uma cria
Presente que alumia
na amplidão lá do topo

és príncipe vespertino
timo tino de estrela
tudo tens, sabes quem és
tua verdade revela

sendo ovo, ave , lua
lupino uivante, vento
és um devoto da rua
entendes cada elemento

cigano real, proscrito
lá do povo do Egito
companheiro de Antão

eu igual sou do deserto
e sinto teu vento perto
me desvelando refrão

sete véus, sete couraças
toque sutil, e da graça
de deus, vais me entornando

Se oro é porque sinto
uma semente absinto
rompendo a casca, brotando

Eu sou cigana segura
no peito uma pedra dura
e armadura de cobre

tu és homem de vitória
que gosta de muita estória
Pois a minha é muito nobre

tenho alma no cinismo
e de vez em quando cismo
me escondendo no solo

me casulo, me abismo
procurando o misticismo
na terra buscando colo

é rico encontrar parceiro
que eu segure o cabelo
e que galope comigo

que não me troque em camelo
que traga na testa o selo
de companheiro, de amigo

Deus queira que Sara Kali
nos indique bom caminho
pois já sigo iniciada,
embriagada do vinho.

de mim

bolinha bolinda
molinha molinha
dançadeira
capoireira
na minha malinha

barriga balinha
embrulhada
embrulhadinha
em toalha de carninha
carmim

minha flor roxinha
minha floridinha
minha ciganinha
de mim

sexta-feira, 25 de julho de 2014

cesária

necessária cera
será necessária
será que ária

cera de abelha
cera de ouvido
boneca de cera
de vela

vela de barco
vela de queimar
vela, vê-la, amar

cera de cuidar
qualquer cera
ceia que será
seio

sábado, 27 de julho de 2013

...

visão geral
geral mente
quê abarca?
barco é vento
ventre baixo
alto lar

ê, vidão...

quarta-feira, 17 de julho de 2013

ciranda

somos todos párias
somos todos um
se quiser falar com deus
basta falar com algum
de todos, de nós
se quiser calar com deus
basta deixar que mande a vida
vida-lida severina

basta a sina compreender
inteira rota, acolher
o cão-baleia que se aranha
arranha a porta tamanha
dos palhaços suntuosos
dos medos acabrunhosos
do amor mais ampliado
cão-coragem convidado
leão miragem legado
do povo, da gente, da terra...
dessa ciranda pequena
dessa ciranda maior


terça-feira, 30 de abril de 2013

^^ Y

tempo da avestruz



chegou novamente o tempo da avestruz
enfiar a cara num buraco escuro
e ser fêmea cinza
nuvem pluma cinza
na diluição do preto macho

montaria humana
profundo do insuspeito
nublada de pégaso
boca buraco e peito

chegou o tempo da ave tonta
carne pesada pronta
que na terra se distrai
 
pardal-camêlo, do grego
misturada ave equestre
chegou a hora e o tempo
do voo cego e silvestre

chegou o tempo da avestruz
travesti cinza madura
pegar a esquina dura
e ciganar no sinal

voar como fosse nuvem

chegou o tempo cinza da avestruz
e na cinza ela revela o tempo

sábado, 23 de fevereiro de 2013

MEIA

Quadro de Artur Dias
  
buscando a escuta
telefone sem fio
finalidade do fio
finalidade da escuta
buscando a integridade
palmeira invertida
finalidade do tema
feita avestruz - meia

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Sobre o semi-árido:

Caatinga

O teu suvaco é o melhor cheiro
Umburana, cajueiro...
Me inteiro dele, observo, conservo
Me serve.
Inteiro.
O teu suvaco me acalma.
Ar de árvore. Me arvora. Alvoroço.
Me desalma.
Me indecora.
Indecoroso.

No meio do tempo
a alma range.
Almanaque que me foge...
Teu suvaco longe.

Metade tarde no deserto
Acordo de sonho desperto.

Outro fato. Olfato.
Teu cheiro de gato do mato
Revirando meu lixo...
Bixo indiscreto.

Irresponsável, disperso.
Quando passa deixa sempre a porta destrancada.
Há de ser pego pelo rabo
em emboscada.

-Me destranca!
Concorda e me espanca!
 Aberta a tranca
desperta o nó.
Meu gogó enforca.

-Polícia!

Sente a delícia do mal que alicia.

Carrasco...
Na tua lei eu me lasco
Caio numa fria.

“alegria alegria...
Você trás a coca-cola
Eu tomo... ”

Bebida do cão.

Puro osso moço mag(r)o
vem que te faço estrago
estrangulo engulo bulo pulo
a cerca, perto, fina caatinga.

Tenho sêca, sêde – sede amoringa...
quero bebê-lo, palmeirim imperial
cristal onde o bebedoíno amarra o camêlo
com zêlo, sem atropêlo,
quero comê-lo.

Vara, pau, menino, alto, galante,
filho, infante, varão, verão, volteir...

Varou de flecha meu peito
de mulher. Varou de jeito.
Taquari tacaratu tesão-açú...

Dizem que por essas e outras
foi eleito: “A Louca do Pajeú”!

E é por tanta lindeza de ser tão,
temporário desvario,
que depois de tanta fala, silencio.

Pois há como ser boa e amiga
a convivência com o semi-árido.




Guiné, da Selva - Novembro de 2010/12.



karma kordel


Cordel do Karma amoroso.

Cumadre, minha cumadre
Inda bem que tu chegou
eu já tava agoniada
te esperava com fervor
tenho tanto a te contar
que é melhor tu te sentar
pois a história é de amor

Ave Maria, cumadre
Então tô no lugar certo
Pois se existe uma coisa
De que quero ficar perto
É de causos de paixão,
De romance, de tesão
De amores descobertos

Já tô vendo pelo tom
Tu também estais deslumbrada
Achaste alguém pela estrada!
Estás usando até batom

Vermelho, minha cumade
Tamanha a euforia
Um fogo que vem de dentro
Coisa que não mais sentia

Vermelha também estou
Vestida toda em paixão
Suspiro a todo instante
Me guia a emoção...
Acontece que, cumade,
Uma confusão me invade
Algo sem explicação!

Me conte logo quem é
a figura do momento
Provavelmente outro karma
conduzido pelo Vento

No dia que o vi, era Primavera,
Estrelas bailavam, saudando a estação
E os ares mudavam a constelação
Trazendo-me o novo, o que não se espera
Uma luz incidia, cores de aquarela
E’eu água, fluindo, o olhava surpresa
me reconhecia, confusa clareza
lembranças de um tempo, quase intemporal
alguém que algum dia, me era vital
e que ressurgiu, me trazendo incertezas
Como Jung nos dizia
O que a gente não resolve
Não tem jeito, não dissolve,
Retorna como destino
 
êêêita...
Esse Jung era sabido...
era sabido demais!
Eu mermo num ‘tem’ mais paz
‘Té’ meu sonho é perseguido
Pareço animal ferido
Sem muito poder mexer
O deixar acontecer
É o que tenho de opção
Não posso ir na contra-mão
Só me resta re-viver

Pra isso que os karmas vêm
uns fantasmas ressonantes
uns zumbidos, uns berrantes
ressuscitados do além
e não nos deixam tão zen
nos agoniam é muito
com garras de cão afoito
arranhando as nossas portas
acordando coisas mortas
em seus grunhidos de coito.

Também se buscam de fato,
e a nós suas esposas;
Sendo lobos e raposas,
Sendo cachorros do mato,
A luz do olho do gato.
O movimento da lua.
Expresso e me sinto nua
Ele cala e eu escuto...
Porque eu fico de luto
entendendo a morte sua?!...

És igual Orfeu de Eurídice
Não crês que o possas ter!
E a morte que te fere
e que não querias ver
é o que de fato se inscreve
nas profundezas do ser.

E mermo, comadre sábia
tinha esquecido essa a lei
Se penso no que não quero
só o que não quero vem
Devo pensar no que é belo
Pensar no que me faz bem

Ontem mesmo me deram para ler
um livreto do sábio Saramago
Bem se vê pelo nome que foi mago
inda mais pelas coisas que se lê:
“Que amar é a melhor forma de ter
e que ter é a pior forma de amar”
Veja só que exercício salutar,
o de amar sem ter medo de perder,
e perder esse medo de amar!

Parece queu li o tal livro que dizes
Num fala de mares, de ilhas até?!...

Exatamente, cumadre
um navegante que quer
um barco, e que pede ao rei,
e lhe escuta uma mulher
e comungando do vento
oferece a sua fé.

A ilha desconhecida
ele pretende encontrar
Uma ilha diferente
Que em nenhum mapa está
Canto desacreditado
pelas gentes do lugar

E procura o não-lugar
o ponto de mutação
de que nos comenta a física
fazendo essa alusão
a um espaço que existe
mas que é em relação!

A ilha desconhecida
é aquela que nos une.
Ninguém a ela é imune
Por todos ela é sentida.

E a essência da vida...
Pensamento dividido.
Se o EU cá é finito,
o OUTRO é que é o sentido!

Num vejo sentido não
pois não sei se ele vê
eu penso que só fiz merda
em inventar de me envolver
e ele agora me despresa
Me olha todo blasé...

Todo bicho produz merda,
Fato! fede e fertiliza.
Com tudo a gente improvisa
Se aprende com a perda.
De toda morte se herda
Alguma lida e saber...
Perca o medo de perder
Seja parca, fique em paz
Signifique o rapaz
Na metáfora do ser.

Nossos olhares se olhando
Trazem embriagamento
nossos corpos se tocando
uma febre, um lamento
freqüências já moduladas
energias reencontradas
uma prece, um alento

Pois é, querida cumadre...
A flor das habitações
O mago destas nações
As razões da grande madre!
Já nas orações do padre
a busca é conflituosa.
Entre a poesia e a glosa
a prosa prata Luzia
Uma igreja hipocrisia
Silêncio que oprime a rosa.

inda bem que tu entendes
É exatamente isso
Um cutucão no toutiço
Que nos deixa mêi demente
Nos remexe de repente
O sangue e alma fervura
Se instala uma loucura
Santa, contudo profana
Que nos confunde, que engana
E nos lança na aventura

Aventura de tempos ancestrais
Carregada de símbolos, mistérios
De poderes intrínsecos, etéreos
Recorrendo buracos abissais
Vindo à carne, a nós os animais
Conscientes e tão inconscientes
De nós mesmos, nós sempre tão ausentes
Tão perdidos, buscando e buscando
E no outro, no espelho, encontrando
Sonho, imagens, fogueiras e correntes

E correntes correntes, e correntes...

Corredeiras me trazem, eu, menina
De colares, pulseiras e anéis
Danço, canto, e escrevo uns cordéis
Redescubro minha graça feminina
A essência sagrada, eu divina
O meu sangue em cálice de amor
O meu sexo pulsando com ardor
Derramando meu cheiro no universo
Me entrego,  revelo meu reverso
Dou adeus ao que em mim era torpor

Comadre querida, é tudo qu’eu quero
Poder ser tão plena nessa comunhão
Mas vem esse medo, essa culpa, esse não
Paixão somatizo, doença que gero
Depois me perdoo, medito, e espero
Que um dia o encontro amanheça melhor
Encontro comigo, é bom estar só
Segura, tranqüila, realimentada
Depois de sangrar, de alma lavada
Me sinto mais gente, desatei um nó.

Muitos nós, no entanto, ainda existem
E é somente em contato e relação
Que se pode tratar com exatidão
Os feridos e feras que insistem
Pois te digo que eles não desistem
Como Jung nos disse eles retornam
E os caminhos febris eles adornam
Como pedras nos selfs, atordoam
Arabescos tais aves que revoam
E onde pousam, janelas que se tornam.

Penso até que em outra vida
Eu fui dele a Psique
Procurava sem saber
Que nele eu tava contida
E incerta, e atrevida
Redescobri-me no amor
Fui flexada, senti dor,
Mas prossegui na jornada
Por deuses abençoada
Torno ao Cosmos com louvor

Quem nos guia é o fio de Ariadne
O amor, nossa busca incessante
tando juntos, não existe minotauro
Que nos mate, aniquile, corte o instante

Mas se em ilha sozinha me deixar
Eu invoco a deusa Afrodite
E ela logo aceita meu palpite
E me envia um Deus pra me encantar
Meu mortal viverá em outras paragens
Seguirei com outro alguém nessa viagem
Meu destino é um dia eu me encontrar

Esses pestes vêm é aperriar
Aperreio preciso, eloqüente
E a gente, mulheres – as serpentes!
Cutucadas nos pomos a gritar
Nos abrimos pro ser e pro estar
Nos abismos gozamos confiança
Respeitando a si e a própria dança
Convivemos com o medo inerente
Que contido em nós, seres viventes
Nos transmuta, nos lança, nos balança.

Eita conversa infinita
Num instante passou a hora
Se sentires alguma coisa
Expressa, bota pra fora
Faz teus verso, poetiza
Cheira as flores sente a brisa
Comtempla o nascer da aurora!


Por Luciana Carmen Rabelo e Anaíra Mahin
Recife, 2010