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sexta-feira, 27 de novembro de 2020

A natureza da flor

Inquietante pensar
Que o desamor possa haver
Que mal se possa fazer
Que a vida possam roubar
A beleza violar
Mudando o rumo da estrada
Essências violentadas
Perguntamos até quando
Eu vi as plantas velando
Mil flores despetaladas

Sob leis eclesiais
Hipocrisia imperante
Alguns direitos vitais
Tomaram tom dissonante
O proscrito e o errante
Voz que quiseram calada
Sabedoria queimada
Em fogo se transformando
E a natureza velando
Mil flores despetaladas 

Mil flores despetaladas
Estrada e terra que voa
Espinhadeira corroa
Na Crística caminhada
Porém a nossa pisada
Tem passo forte e pesado
Caminho abençoado
Pela mãe compadecida
Que gera, cuida e dá vida
Ao que outrora foi velado.

A força do feminino
Nos encoraja na fé
A graça de ser mulher
E entoar nosso hino
Um encanto peregrino
Entorna a face cansada
Abranda a dor esgarçada
Do parto pleno se dando
Sereno desabrochando
A roseira agraciada.

O mar chegou aportado
Veio esgarçando a fresta
Serena sua seresta
Sereno o seu estado
Sereias em seu legado
Um rio virando mar
Um uivo soa lunar
Na voz de todos os santos
Mil bruxas saúdam seu canto
em seu retorno para cá

sábado, 10 de novembro de 2012

ciganos



De como Laura conheceu Dulce.

Cidade de Flores, vale do Rio Pajeú, Sertão do Estado de Pernambuco. A menina Dulce de oito anos de idade perambula o centro, perto da feira, a mão passando dedinhos pelas grades das casas granfinas, pega um hibísco e despetála, se encosta em um carro negro, se adimira nos vidros, fica gordinha e torta na imagem da lataría e ri sem dois dos dentinhos cerrados; é queimada do sol, acobreada, os dedos magros e abertos e os cabelos secos de ondas; a mãe interpela transeuntes olhando nos olhos; com os cabelos repartidos ao meio escuros de tinta, a camisa com babados na gola canoa e mangas fofas e curtas num elástico que marca a curva que define o fim do ombro, fartos os seios de quem amamenta na blusa sem tanto decote; pouco da barriga aparece, a saia estampa um jardim, um lenço azul amarrado baixo o ventre em v e vazado dá pompa a personagem que está despida de jóias; ganha uns trocados de um senhor de chapéu, mas ele não permite que lhe leia a mão; “é pra menina”, diz e aponta, junto com as moedas um pirulito de açucar queimado em forma de quarda chuva; segura a feira e a mão da neta, quase a menininha dele parecia com Dulce, elas se olham de longe com um sorriso amarelo sem tantos dentes. Dulce no seu perambular, conhece uma mulher que pesquisa ciganos por aquelas bandas, Dulce não sabe disso, não entende, fica olhando pidona e a extranha pergunta o que Dulce quer, ela diz querer dinheiro, dinheiro não tenho, como é seu nome, “Dulce”, diz, e pega na mão da moça.  Largas as sobrancelhas delas, percebe que a extranha tem cara de cigana, pede a Dulce que a leve em sua casa, Dulce toda livre nem olha para mãe que se ocupa em suas propostas de consulta. Vai até a casa do avô agarrada à mulher do carro preto, dulce pergunta a moça por que ela fala diferente e ela diz que é argentina. Chegando na casa a argentina do carro preto pergunta ao avô da criança se pode dançar pra ele, liga o som na sala que o sol entra, ele sentado perto da quina do corredor que dá pra cozinha, as paredes azul claras, no caminho os quartos, no vermelho da dança sai um rapaz belo de um dos aposentos, é irmão do pai de Dulce, mira desejoso os movimentos da toura na maré do sonho de de tarde, no enfado do calor dalí. Voce é bonita, diz ele depois da dança dela, enquando se encaminham à cozinha afim do café que ofereceu a velha que desconfiada fala na língua cigana com a neta e depois inquere a argentina que ainda é extrangeira; “como é seu nome”, Laura, responde vendo os movimentos da velha que prepara café.

(da série, 'peixes e ciganos' - Junho. 2010).