quarta-feira, 14 de novembro de 2012

duas histórias em uma



O  Milagreiro Quebra-Osso
eo romance de Mabel e Toríbio Fortes


Eu vou contar a história
Dum caso que aconteceu
Há mais de 50 anos
E que comigo mexeu
É a história de um casal
Que ficou amigo meu.

Não sei se alguém já leu
Nenhum livro foi escrito
Mas quando eu fui escutando
Fui achando tão bonito
Que não podia deixar
No dito pelo não dito.

Eu aqui ainda cito
O dia em que os conheci
Naquela noite chuvosa
Perto do Tucuruvi
No bairro Vila Mazei
Naquelas bandas dali.

Com a minha vó, tava ali,
Com Saura, e a prima Aninha
Também tava o primo Henrique
E a minha tia Kinha
Esperando numa fila que
Outras pessoas tinha.

E outras pessoas vinham
Procurando alguma cura
Pra seus problemas de ossos
Pra sua desestrutura
Pra melhorar a cifose
E aumentar na altura.

Era um senhor sem frescura
O curador do lugar
Com uma roupa de esportista
E um tênis all star
Disseram que havia sido
Da polícia militar.

Continuando a contar
O senhor que descrevia
Teve um problema grave
Que doutor não resolvia
E o milagre da cura
Foi com quiropraxia.

E essa tal praxia
Pra ele virou missão
Tendo aprendido o ofício
Tinha uma coisa na mão
E essa coisa era a cura
Que hoje oferta a todo irmão

E virou religião
A promessa do senhor
Que aprendido o bendito
Ofício que o curou
Ele o ia divulgar
Como graça ao salvador

E com as mãos de amor
O homem vem estralando
As juntas de quem lhe chega
Pela fila lhe esperando
E chega o povo bem torto
E ele saí concertando.

Parece que vai quebrando
Lhe apelidam “quebra osso”
Às vezes tem um gritando
Dizendo: “calma Seu moço”
Mas quando lhes passa a dor
Querem encher o seu bolso.

O fato é que o “Quebra Osso”
Que estrala tão ligeiro
Trabalha pela promessa
Não pela voz do dinheiro
Porque se ele quisesse
Ele virava bicheiro.

Mais parece um milagreiro
De tanta gente na porta
Tem gente que vem tão mal
Que a nossa alma corta
Mas o tal do “Quebra Osso”
Vai ali e desentorta.

Somente o que o conforta
É o corpo em harmonia
O esqueleto certinho
Sem nenhuma cirurgia
Pois só o que ele critica
É a tal alopatia.

Que qualquer Dona Maria
Que chegue a um hospital
Com dores em suas juntas
O doutor diz: “estás mal,
O jeito é cirurgiar
Na anestesia geral”.

Eu digo que esse mal
O milagreiro abomina
E aconselha a seu povo
E a ninguém discrimina
Pois todos têm o direito
De ficar com tudo em cima!

Mas eu me perdi menina,
Da outra história importante!
Ia contar pra vocês
Outra coisa nesse instante...
Espera que vou lembrar...
Não preciso ir tão distante.

Então, seguindo adiante,
(Lembrei o causo qual era)
Naquela fila engraçada
Não foi coincidência mera
Encontrar aqueles dois
Ali, numa mesma espera.

Uma coisa a outra gera
É a lei da atração
Encontrei aqueles dois
Em silenciosa oração
Cês vão ver como deu certo
Como entraram na canção.

Eu pensando: ‘Eita mundão
De coisa linda pra ver
Só basta ser a janela
Para o dia amanhecer
E depois de amarela
Virar azul no saber.

E tudo a acontecer,
Sem uma ativa procura
A brincadeira existindo
Com as asas na loucura
Uma loucura de ave
Que eleva a vida à altura.

Pois eu estava segura
E na busca do presente
Sabendo que tinha algo
A me dar aquela gente
Sabendo que a mão da troca
Não era tão diferente.

Foi então que de repente
O casal veio ao destino
Um senhor que alegremente
Cantava um tango argentino
Em uma veste alinhada
E com ares de menino

Estava muito granfino
Feito cantor de bordel
Um terno preto listrado
Só lhe faltava o chapéu
E ao lado a sua esposa
De nome: Dona Mabel

A mão de dona Mabel
A cavucar pela bolsa
Procurava um retrato
Do tempo em que era moça
Um retrato bem antigo
Que ela guardava zelosa.

Um maiô bem elegante
a trapezista vestia
preto e branca no retrato
colorida na magia
do tempo em que trabalhava
num tal de Circo Garcia

recordava apontando
o retrato situado
recordando inclusive
como havia começado
essa vida estradeira
com Toríbio, seu amado

nas terras da Paraíba
Campina Grande a cidade
Foi onde começou tudo
Com muita propriedade
Uma cigana dizia
Que ela dali saia
Por causa de amizade

E um dia, dito e feito
Chegou por lá um rapaz
Leitoso, cabelos pretos
olhos cheios de sinais
pelos mistérios destinos
das suas sinas gerais.

Ele gostou da donzela
Fixamente a olhou
E a face enrubecida
Pelo olhar que a penetrou
Corajosa e discreta
Um outro passo esperou

Ele foi ao seu encontro
Não sabia o que dizer
Se sentindo apaixonado
Quis com a moça viver
Pediu logo em casento
Pelo medo de perder

Como ele era do circo
medrava a rejeição
Inventou umas mentiras
naquela situação
Pabulando um outro ofício
Que apresentasse mais chão

Mabel, cabocla faceira
Em Toríbio apostou
Não que ela acreditasse
Em tudo que ele falou
Mas era crente às palavras
Que a cigana professou

O pai dela era valente
velho brabo e ciumento
Queria filha nenhuma
Arranjando casamento
Com forasteiro enxerido
Don Juan, mal elemento

Consciente da resposta
De seu querido paizinho
Mabel, que era decidida
A seguir o seu caminho
Embarcou na aventura
Dessa troca de carinho

Fugiu com o viajante
Virou moça desonrada
E nesse caminho errante
Já tripulando a estrada
Uma verdade secreta
De pronto foi revelada

"A minha casa é o circo
Não sou rico nem doutor
Temia que se dissesse
Estremessesse o amor
Mas nesse momento digo
Inda queres vir comigo
Ou vais me deixar na dor?"

"Dá tempo de desistir"
Mabel refletiu - será?
Se eu voltar desonrada
O meu pai pode me matar
Eu já ousei na coragem
Não quero mais arriscar

E foi-se embora Mabel
Fazer da estrada a sina
Deixou a vida de moça
Os pais, a casa, a campina
Já ae sentia mulher
Carregando uma menina

Dali foram muitos circos
Que essa dupla enfrentou
Tiveram filhos os dois
Uma equipe se formou
Criaram seu próprio circo
Não era pobre nem rico
O universo ajudou

Com a família formada
Voltaram para Campina
Mabel fora perdoada
Pela saga peregrina
Seu pai e mãe viram festa
Cada neto uma seresta
Refiguravam a sina

Turíbio a mãe recordava
Uma Índia Guarani
Cabelos negros da noite
Feito a valente Anaí
Viveu as dor do desmundo
Mas deixou um tom profundo
De força pra o conduzir

Lembrava ele dos traços
Do rosto da mamãe sua
Da verdade que trazia
Em sua beleza crua
E do cansaço vigente
Que embebia o presente
Na lembrança que situa

Essa ancestralidade
Os dois traziam em si
Sendo Mabel sertaneja
Uma cabocla daqui
Em sua face trazia
Uma invisível etnia
De outra ramagem tupi

Enfim, contei deste encontro
Como tantos outros são
Entrelaçados a outros
Unindo cor e canção 
Tendo a história na bagagem
Busco no verso ancoragem
Pro barco ter direção

Tenho admiração 
Por trajetórias assim
Histórias vivas reais
Que chegaram até mim
Que em momento me encantaram
E por aqui se contaram
Virando verso no fim



































sábado, 10 de novembro de 2012

ciganos



De como Laura conheceu Dulce.

Cidade de Flores, vale do Rio Pajeú, Sertão do Estado de Pernambuco. A menina Dulce de oito anos de idade perambula o centro, perto da feira, a mão passando dedinhos pelas grades das casas granfinas, pega um hibísco e despetála, se encosta em um carro negro, se adimira nos vidros, fica gordinha e torta na imagem da lataría e ri sem dois dos dentinhos cerrados; é queimada do sol, acobreada, os dedos magros e abertos e os cabelos secos de ondas; a mãe interpela transeuntes olhando nos olhos; com os cabelos repartidos ao meio escuros de tinta, a camisa com babados na gola canoa e mangas fofas e curtas num elástico que marca a curva que define o fim do ombro, fartos os seios de quem amamenta na blusa sem tanto decote; pouco da barriga aparece, a saia estampa um jardim, um lenço azul amarrado baixo o ventre em v e vazado dá pompa a personagem que está despida de jóias; ganha uns trocados de um senhor de chapéu, mas ele não permite que lhe leia a mão; “é pra menina”, diz e aponta, junto com as moedas um pirulito de açucar queimado em forma de quarda chuva; segura a feira e a mão da neta, quase a menininha dele parecia com Dulce, elas se olham de longe com um sorriso amarelo sem tantos dentes. Dulce no seu perambular, conhece uma mulher que pesquisa ciganos por aquelas bandas, Dulce não sabe disso, não entende, fica olhando pidona e a extranha pergunta o que Dulce quer, ela diz querer dinheiro, dinheiro não tenho, como é seu nome, “Dulce”, diz, e pega na mão da moça.  Largas as sobrancelhas delas, percebe que a extranha tem cara de cigana, pede a Dulce que a leve em sua casa, Dulce toda livre nem olha para mãe que se ocupa em suas propostas de consulta. Vai até a casa do avô agarrada à mulher do carro preto, dulce pergunta a moça por que ela fala diferente e ela diz que é argentina. Chegando na casa a argentina do carro preto pergunta ao avô da criança se pode dançar pra ele, liga o som na sala que o sol entra, ele sentado perto da quina do corredor que dá pra cozinha, as paredes azul claras, no caminho os quartos, no vermelho da dança sai um rapaz belo de um dos aposentos, é irmão do pai de Dulce, mira desejoso os movimentos da toura na maré do sonho de de tarde, no enfado do calor dalí. Voce é bonita, diz ele depois da dança dela, enquando se encaminham à cozinha afim do café que ofereceu a velha que desconfiada fala na língua cigana com a neta e depois inquere a argentina que ainda é extrangeira; “como é seu nome”, Laura, responde vendo os movimentos da velha que prepara café.

(da série, 'peixes e ciganos' - Junho. 2010).

Sapo cítrico

-Achei de comer um sapo de gelatina. Era um sapo cítrico. Coloração verde verdade e aroma artificial. Textura de pele. Entre mucosa e cartilagem. Nem uma coisa nem outra. Anfíbio obliquo da ilusão. Engoli. Na fila do cinema mudo.

-Absurdo. Tava bom?

-Bom como o desprezo. Como boca costurada com um nome dentro. Entre o desejo e o paladar.



( 9. 11. 12 - shopping plaza, em torpedos de cientista com Hugo Coutinho)

quinta-feira, 25 de outubro de 2012



Licença Poética

Careço tirar uma licença poética
E a acabo por tirar mesmo
Sem legitimidade
Na academia não me é aceita
Ou pelo silêncio ou pelo alarde
Docemente tentados
Orgulhosos e sublimes, docentes
Criam crimes dolorosos e afeitos
Rigorosamente os jeitos são delitos
Graves. Monolíticos entraves
Os patifes sorvem só o desacato
E prendem com mandato à detenção
Na frieza dos corredores
Desfilam o pouco poder
Reprovando a diferença

Guiné da Selva, 25/10/12. Caxangá – Margens.

manoel luiz



Manoel Luiz dos Santos, libriano, nasceu a 29 de setembro de 1926 no povoado Batatas do município de São José do Egito, no sertão pernambucano. Escreve e publica seus próprios almanaques, sendo o seu “Almanaque do Nordeste Brasileiro” o almanaque mais antigo em circulação no Brasil. Em 2012 completa 64 anos de publicações contínuas. Em nossa visita a ele em 2010, já tinha prontos, o do ano seguinte e o de 2012.

Almanaque, segundo Aurélio Buarque de Holanda: "Publicação que, além de um calendário completo, contém matéria recreativa, humorística, científica, literária e informativa.

“O almanaque é um gênero editorial, não um gênero literário”, afirma Bráulio Tavares.

Os almanaques, são parte importante da literatura de cordel. Populares nos nordestes do país, nas feiras, nos sertões; são parte de uma poética do campo; a relação com as chuvas, com as secas, solustícios, luas, eclipses... O plantil e o cuidado dos rebanhos...

Os almanaqueiros são profetas, poetas, religiosos místicos... Mistos ciganos, sem ser... Brincantes com o tempo, com a métrica dos versos, com a matemática orgânica do cotidiano ampliado

Manoel Luiz passou três anos cego, cego de guia,
mas não deixou de fazer seu almanaque
pedia ajuda da companheira Olívia,  
 "bamba" na pesquisa e na datilografia  

Hoje Manoel não paga mais gráficas, faz seus escritos e recortes, suas contas, gráficos, versos diversos, e vai na xerox... Sai mais barato e na hora; com a letra dele, o risco dele, a cara dele

Da madrugada. Quando criança gastava toda a Querosene Jacaré que o pai comprava; cara, preciosidade. O combustível permitia o luxo das letras e dos números do fogo interior refletindo debaixo do céu

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

sábado, 15 de setembro de 2012

el mocho

el mocho tiene una sabiduria de la naturaleza.
de las noches, de las lunas. 
conoce las muertes e los abismos.
conoce los vientos e los costumbres sacerdotales.
y canta su cisma con el tiempo que cambia.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Poema pra Renato


Bom te ver; narrando
tuas mortes hoje,
tua vida nos olhos,
nas mãos, no jeito...

direito de quem viaja
cavalga e flecha

Professor e mago
ao lado do lago calmo
medo sem respaldo
da embarcação de palha
de índios,  de causas

chegando cheio
sempre, solar

na crina de poupa
no salmão da casa
no sabá de lua nova

negro, receptivo
chocolate amargo
nos olhos de deus

tempo doirado
no Salomão da estrela

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

MORENA



- Preá assado ou cozinhado?
(isso é a cara do meu povo)
- Assado! (seco e de novo)
- Eu fico com o cozido!...

- ...vem aqui que tou em apuros duros,
 cheia de alegria nostálgica de você...
é, tou voltaNDO A SOLTAR OS RAIOS NO HORIZONTE
mas a vida é real
de costume a gente idealiza
coisa engraçaaada...

pode trazer o preá em prestações
em banho maria da penha...

gosto dessa estética sem prtnção de mano

- semo que?

- Pretensão, quis dizer...

- sim, claro
sem perder as ambições referidas ao tema futuro
sem deixar também de fazer paralelos ambivalentes com a estética armorial
sim, claro... uma interpenetração quase da ciência obstetrícia
poeticamente falando, é claro...

- não mude de assunto... quero o preá da tua presença...

coisa mais bonita, em toda natureza...

(acabei de postar um agrado disso tudo)



- fiquei sem resposta ao seu nível de desenvoltura...



- sem modestia, minha cara... tua desenvoltura está acima do nível
do mar, por assim dizer

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Argumentando salmos

Conclusão. Condição diluída de gentil. Mata deflorada. Mistério mastigado. Parada solicitada.... Morrendo sem sentido, sem palavra certa, cercada a flor. Sopro inaudível nesse estado civil, convalescente, de anemia sem nome, falciforme. Aquietar caule da condição diz da verdade que há de vir acordar caminho calmo. Eu me movo no azul, no solar... Meu direito explodiu a barragem.

terça-feira, 24 de julho de 2012

farinelli

Cantores castrados da Itália. Rogo benção, orações celestinas. Belos cenário de pavão de oxumareh. Uma ampla paisagem de palmeira. Rogo vossa dor amor na compreensão do belo canto. Protege-me goela, caixa torácica, diafragma, os vazios cranianos, os olhos abertos... Obrigada pelos agudos, vibratos raros, variações, estacatos e desacatos. Prego, meu orih, libera. Deus queira e me de merecimento. Podem vir na gira, no sono, na mesa, altar... Finas. Égua humilde prepara teus pouso.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Medicinas.

É horrível o gosto que tenho agora nas entranhas, subindo e descendo e amargando a língua, remédio trágico, cor de rosa, argh! Nojo! Invenções cruéis da humanidade ocidental, alopatia de merda... cheguei e tinha um gato na porta da casa, preto e branco... o deixei entrar, pensei nos egípcios e o deixei entrar. É um gato meio jovem que vez em quando aparece, visinho; hoje apareceu com uma espécie de coleira, parece coisa que criança inventa, uma coleira não coleira... explorou a casa. já havia explorado antes. Inventei de ir cozinhar; um arroz com cenoura, sardinha com cenoura... o gato se espivitava em brincar com meus pés, esses bichos nos vão conquistando com sua lezeira doidinha, com ar de “como quem não quer nada”, seus olhares, ligados, bobos; olhos de jovem... fez barulho na sala, fui ver era o bichano saíndo, tranquei a janelinha, vim trancar a outra, a do quarto, na tentativa de entrar de novo acho que machuquei sua pata direita, aí ele não quis mais entrar depois disso e eu fiquei com um pouquinho de sentimento de culpa, me sentindo má, de uma espécie má, opressora, bruta... os brutos também sentem, eu sinto... e ainda sinto aquele gosto do péssimo remédio cor de rosa que tomei inda agora; seria melhor ter tomado o giamebil, mesmo vencido.

tartarugas

O sonho das Tartarugas.

hei sonhado com duas tartarugas, as encontrava em um prédio antigo, algum prédio público em reforma; os funcionários limpavam os salões grandes, as teias de aranha e as merdas dos morcego, sob vigas e calhas largas, telhado velho, lembrava a usina que conheço, meu lugar psíquico, o lugar que passei a infância. A tartaruginha se punha molenga quase perto do portão enorme aberto que deixava entrar um sol de manhã, uns molhados de água e sangue no piso rústico de pedra áspera. Era uma filha do esgoto, tinha vindo por ele, pensei que deviam haver mais delas por ali e outra maiorzinha apareceu. Perguntei aos guardas onde por ali havia um lagoque eu as pudesse devolver, e sob a manhã levei as quelônias cada qual em um braço com ternura e energia de cura nas mãos. Encontramos em uma praça, um pequeno espaço com água, uma água escura, meio acobreada e com verde lôdo de outras filhas do esgoto. Imaginei que porali tinha algum ralo que as permitia o trãnsito às encanações; fiquei com pena de abandonar as bichinhas naquela falta de estrutura e de cuidado de um lago da vida ubana. A tartaruga maior nem ligou, uniu-se logo às demais impondo espaço no espremido que era aquele lugar, pouca água e turva, meio enferrujada. A tartaruga menor estava fraca e eu temia por sua morte, me sentia sua mãe neste momento; a segurava com carinho, a pus perto de umas plantinhas poucas de folhas esteitas e serradas, ela abriu e fechou os olhos se animando a comer, fiquei feliz e me fiz de garçonette a por na boquinha dela as folhinas que ia tirando dos galhos. Quase ela se engasga no alvoroço, temi, puxei da boca o pedacinho, ela comia e ai ficando vivaz. Em algum momento da imagem a tartaruguinha me lambia a perna.

Julho, 2010.

No Egito

No egito quando a chuva vem luzir, uma abóboda se abre para receber. O Saara tremula solando, se ara, ceará. No Egito, quando é tempo, uma palmeira soluça soluções às famílias ciganas; bons caminhos! Sentidos, centauros e direções. Alah resvala música e astros, olhos d'água marejam estradas; semblante considerando o nada. A boca da criação sorve, se salva e mata; corpo copo que re-hidrata, desidratação que vinha rumando, no deserto ondulando, no lombo do bicho, no tombo da pisada, dos joelhos, no tombar... Criança cristo nascida de espírito, de vento santo, embalada a salmo; de lábio seco silêncio encontra, água, anima...

Advindos da Índia, esses indus adivinhos, ferreiros, vacas; são da consagração sinfônica; giradouros meninas, violas gasguitas. Velhas certeiras palmas; quiromancia, leitura de alma. Nas faces, lacta considerada. Lá vem! Menino moreno que canta; parece um bodinho marrom. Menino antigo, sabido e bom. A outra, a menina, gira até achar o fio; persas à portas abertas, de estio.. E a paisagem os abraça e abençoa. Corcova e coroa.

Alva paisagem areal, deserto...

E outro deserto.

Com o tempo a cidade prende o tempo sem sentir; a paisagem muda, medra ouvir. Surda aos cantos, surda aos gritos, às famílias mudas, e circos. Às praças não podem mais; policiais animais da coerção.

As casas abandonadas são fechadas, e nas fachadas frias, proibidas cantorias. Pr’onde esse canto vai? Desterro, desmundo, desnudo pranto.

Tudo um cinza de chumbo e as palmas feito chuva. Nuvem que estrala na cidade do peito, efeito afeito no lugar da dor. Afim de sobreviver, que se faz? se submete e busca, paz dentro. Ser expulso de lugar, avulso o não-lugar. Magoado, é virar touro de tormento. E é o touro da goela que expande essa gente de cavalo, que relincha a crina amarrada e dá coices, treme à raiva e dolor... Sangra dançando o chão que voa. liberdade buscando, cor.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

coisas da kelly saura




A cidade de Inhuma, no interior do Estado,(ou "à 240 km da capital") foi o local escolhido para a intervenção urbana da artista Kelly Lima.
Intervenção Urbana é um tipo de manifestação artística, geralmente realizada em áreas centrais de grandes cidades. Consiste em uma interação com um objeto artístico previamente existente (um monumento, por exemplo) ou com um espaço público, visando colocar em questão as percepções acerca do objeto artístico. A intervenção artística tem ligações com a arte conceitual e geralmente inclui uma performance. (FONTE: wikipédia, a enciclopédia livre)
A ação ocorreu entre os dias 15 e 16 de agosto. Uma enorme pedra, encrustrada entre casas e ruas no meio da cidade, foi o suporte escolhido para a reprodução de pinturas rupestres encontradas nos sitios arqueológicos do Piauí. O ato chamou a atenção dos moradores que curiosos, vinham olhar, comentar e discutir sobre as pinturas, arqueologia, e arte.
As crianças logo se juntaram ao trabalho, e os pincéis, tintas e "tela" foram socializados. Algumas escolheram fazer as reproduções das gravuras; as menores, figuras abstratas e outras resolveram deixar para a posteridade o registro dos tempos de hoje, pintando figuras que remetem à modernidade, como automóveis e torres.
O trabalho, intitulado Pinturas Rupestres do Ano de 2009, faz parte de um projeto de pesquisa da artista, que iniciou no ano de 2007, numa viagem feita à Serra da Capivara.
"Em 2008 fiquei doente, com uns problemas nos ossos, que me deixou paralizada por um tempo. Nesse período começei a pensar sobre o Sentir e se Auto-conhecer através dos ossos, e o artista como arqueólogo. O arqueólogo traz a imagem à tona, é um revelador, escava, arranha, procura. O artista também. A minha formação é em design gráfico, e eu tinha uma afinidade muito grande com o graffiti e as expressões gráficas urbanas. A manifestação mais antiga de representação gráfica da história da humanidade são aquelas pinturas feitas nas paredes das cavernas. As pinturas rupestres são os primeiros exemplos de graffiti da história da arte. Mesmo com milhares de anos espaçados no tempo, o que mudou foi apenas o contexto, o ato continua sendo o mesmo. Todas essas descobertas e relações que vou tecendo, a partir de uma curiosidade a principio despretenciosa, tem se mostrado um trabalho visceral, estimulante e revelador para mim. Poder tocar as pessoas, principalmente os moradores de uma região como aquela, que nao tem muito contato com o contexto e manifestações de artes contemprâneas, com essas questões, é muito satisfatório. Quanto mais íntimo você é, mais universal você se torna." - relata Kelly Lima. Filha de pais naturais de Inhuma, cresceu no Recife, mas diz que descobriu algo que a reconectou com o lugar, e que pretende voltar mais vezes e continuar o trabalho.
Para quem tiver a oportunidade de ir à cidade de Inhuma, o mural com as pinturas está localizado na Rua .............., próximo à rodoviária.

Para informações sobre a artista, acesse o kellylima-portfolio.blogspot.com , as fotos da intervenção estão no sítio www.flickr.com/photos/kelly_lima/ .

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

ciência da primavera I

foi bom brincar de estudante de ciências
fui muito mais cientista que pensei

quando fui gay e fiz teatro
mais sapatão de pés de pato

nadei demais nas horas vagas
em que dormi semhoras e sem mangas

nessa nudez frutífera e muda
pude viver virgos da vulva

alem chovia à flor vermelha
a primavera puro humor

rugia a fera apurada
a puro toque de quem for

dentro de mim, fera danada



cdu, cfch
martha rocha

lelo

lua laranja
de fazer suco

cheia de muco e choro
de fazer canja

lua de franja
boneca polaca

saí de pés
e voltei de maca

cdu, primavera de 2010

Vó Socorro

Nahinã é meu afilhado, filho de Sofia e Bruno. Esses dias a avó paterna inventou de dar a ele alimentos que na dieta nuclear não comeria. Ele aprende rápido as palavras que dizem do que ele gosta. Quando viu a avó foi logo dizendo na frente dos pai: "Socorro... coca, socorro". "Ossinho, Socorro! Ossinho..."